8 de outubro de 2010

24 memórias IV

às vezes falta rumo e sobra perna
jeito é andar

já andei, já corri, já tibunguei da bicicleta no chão
primeira vez fiquei todo arrebentado
voltei no lugar da queda e procurei marcas de mim no chão.
não vi nenhuma.
eu todo marcado de chão
o chão nem um pouco marcado de mim.

povo diz que a gente deixa pegadas por onde passa.
talvez nem seja.

vinte anos depois veio o verso:

por mais que eu ande,
que eu viva, que eu veja,
o chão é quem deixa pegadas em mim

tem verso que é escrito antes de a gente saber escrever



12 de maio de 2010

24 memórias III

tinha um amigo que levava jeito pra engenheiro
ele desmontava maquininha e viu escrito numa delas:
gasta-a-pilha.

eu levava jeito era pra poeta
eu desmontava era eu mesmo
quase sempre remontava errado e ficava puxando de uma perna
eu seguia poeta porque era incompleto
e seguia incompleto porque era poeta

ainda hoje tenho escoliose por causa disso

3 de abril de 2010

24 memórias II

.

sempre existiu em mim um eu-lírico
de lira não, de lírio
personificado na figura de gente imaginária
ele tem coragem de recitar os meus versos
tão, tanta,
que recita ofegante
quase gago
dá até a impressão de que é inseguro
e é

.

15 de março de 2010

24 memórias I

.

nasci de olho aberto
sem lições de economia
deflacionei o mercado
aprendi a vender muito mais caro
minhas lágrimas para a solidão
que para alegria

.

28 de fevereiro de 2010

seu azul, céu de azulejo

esse verso é fruto
de céu todo estrelado
brotou no chão do cerrado
num tronco cheinho de flor

me traz a lembrança
da noite enluarada
em que os meus olhos
encheram d'água
e refletiram seu luar

céu de cima parou
céu de baixo tremia
como quem dizia
"ai, meu deus, como
esperei esse dia"

16 de janeiro de 2010

do ainda desejo de raízes e asas

eu sou antônio
sou nascido em brasília
mas minha família vem lá do maranhão
hoje meu canto, meu verso, meu pandeiro
voam sem paradeiro
nas asas do avião

oi, passarinho,
por que tão alto vôa?
fiz essa lôa pra módi te alcançar
quando tu vôa, bem do teu lado fica
a estrela mais bonita
que eu posso avistar

sinhá saudade,
por que é tanto que maltrata?
se eu sinto falta, sempre um tanto vai faltar
mas sigo em frente
com a força de quem sente
pois que sentir é uma das formas de lutar

29 de dezembro de 2009

pro ano que vem...

...mais miolo mole, menos cabeça dura

...renda a menos todo mês, tempo a mais pras rendinhas dela

...mais tempo com os amigos do peito e com a amiga do peitão

...mais coisas sem cabimento, que há mais em mim do que fora

...mais tardes enfeitadas de quero-quero e bem querência

...ser menos ouvido e mais ouvidos

...mais bio, menos logia

...mais peito aberto, feito quem corre na chuva

...mais asas, mais raízes, mais teias, mais mãos

19 de dezembro de 2009

pra constar nos quem-sou-eus mais desimportantes


segundo ontôin do hortelino
em janeiro primeiro nascido
brasiliense maranhado
emaranhando sentidos
em quem sente
tambor de crioula, minha semente
mandou me chamar

...pra plantar cataventos

11 de dezembro de 2009

entre místicos e periféricos

...sempre deu medo de que o ano que vem não venha,
e com ele meu aniversário...
dessa vez, eu garanti


“é anúncio?”

é, sim.

“de que?”

pois é... não sei

“ué.. como não?”

é que é um anúncio poético

“de amor? seção de recados”

não. não é pra ser recado. eu queria transgredir. queria que alguém esbarrase num poema procurando carro ou imóvel.

“ah... mas não pode... nosso jornal respeita o leitor que só quer ver imóvel ou carro na seção de imóveis ou carros”

não tem jeito?

“não tem.”

aahhh e quanto fica pra colocar esse texto aqui?

“vamos ver... pode abreviar? ‘p/’ ao invés de ‘para o’?”

não pode... a imagem se perde...

“e o ‘como’, pode colocar ‘c/’?”

acho que confunde ‘como’ e ‘com’... não?

“é.. tem razão... mas desse jeito você vai precisar de quatro linhas... fica mais caro...”

tudo bem... é o preço que se paga pra ver poesia no jornal

“mas você agora pode colocar mais alguma coisa, já que tem uma linha a mais”

não precisa, não tem o que colocar

“ué... mas se tem linha sobrando, coloca qualquer coisa...”

qualquer coisa atrapalha... eu acho que atrapalha...

“então tá bom. você pode entrar na promoção de anunciar na quinta, sexta e sábado”

isso eu quero

“vai sair na seção de recados de 10, 11 e 12 de dezembro então”

ótimo. muito obrigado.

“boa sorte com seu presente”

18 de novembro de 2009

nanoconto bem triste

andavam na rua o menino e o verso.
o menino era irmão mais velho do verso e tomava conta.
por descuido, o verso se desgarrou da mão do menino.
o menino ficou sem crescer muito tempo por falta de notícias do seu irmãozinho.

andavam na rua o menino e o verso.
o verso era irmão mais novo do menino e se sentia protegido.
de um instante pro outro, o verso se viu sozinho no meio dos carros.
o verso teve que amadurecer rápido e ligeiro, pra viver nesse mundo de radares e buzinas.

anteontem, os dois se encontraram no twitter e não se reconheceram


25 de outubro de 2009

reinvento










[sou isso.
rascunho amassado
dobrado montado em catavento.]


(o vento
me toca o peito
me roda ciranda
por dentro do peito.
o vento.)




{a cada inspiração}
aprendo com ele


..os parênteses, colchetes e chaves são pra que o vento não leve as partes importantes do texto. isso já aconteceu uma vez com outro poema leve demais..





18 de agosto de 2009

feito abraço

.

...a busca é por uma poesia que seja táctil aos olhos.
ipês amarelos em agosto são tácteis aos olhos.
a vontade é conjugar flores de ipê no lugar dos verbos...

.




.
a mesma vontade é de andar na vida
namorando e querendo bem você, moça,
muito
.

6 de julho de 2009

Sobre céu e grãos





o engraçado é que
, quando encontra meu olho,
um cisco é maior que o céu...


... inspirado no grão de Yara...

12 de maio de 2009

23 de abril de 2009

com o que se cata, se inventa

pode não parecer
mas o menino despirocou na prática poética
tão! tanto!
que só pensa em passo
....................em verso
....................em traço

e no Projeto Catavento de Poesia Táctil







pois é ventando
que se movimenta
donde se cata
pronde se inventa

12 de março de 2009

ciclo vitalício de um poema desde o início (ou ciclo vital de um poema sem final)












...necessário acrescentar que:
o orvalho compareceu pessoalmente
ao enterro da poesia
e formiga fez fila no cortejo
e bosta de passarinho também veio
nem Jonh Lennon teve essa honra
nem o Obama já se sentiu tão importante

e que depois da chuva, o chão ficou impune. Eu não.

5 de março de 2009

sentimentésimo de segundo

poucas palavras me dão idéia de todo
como azul me dá
não sei se pelo z já vizinho ao a
ou se pelo ul sem final
recobrindo em eco
silêncio
pode também ser
pela semelhança de traços com a palavra irmã asa
(tão cheia de infinitos)
interessante que eco signifique casa
pausa
poucas palavras se aparentam ao que são
a palavra vôo era mais bonita antes da reforma
trazia nela um passarinho batendo asa bem perto
e um segundo batendo asa no alto mais longe

interessante a ecologia não tratar dessas coisas
por que não selecionar logo tudo?
...que esse texto nasceu por espaços preenchidos de azul

6 de fevereiro de 2009

Coralina e sua Goiás

Ana assim tão avoada
talvez não ache rapaz
que lhe faça bem casada

-Da porta ouvia por trás-
engole o choro menina,
criança aqui não opina
nem desobedece aos pais

Ana boba, distraída
a lição deixou pra trás:
sabedoria vem da vida
e com a vida muito mais.
Mais aprende quem ensina
com sonho, com sua sina
mostrando como é que faz

Alma bela, emoldurada
de janelas e portais,
reverbera badaladas
((os sinos e os sinais)).
Poesia lamparina
clareando cada esquina
Villa Boa de Goyaz...

...que teu doce me nutre a alma
teu verso me decora o peito...

25 de janeiro de 2009

soprador de ar nas ventas

Me perguntaram se eu fazia poesia.
Deu vontade de eu dizer que poesia é quem me faz...
Isso me pareceu Manoel de Barros, talvez inté fosse. Ele também daria primazia à poesia. Muito mais. Como quando deu primazia à rã, dizendo que era o rio quem morava em suas margens.

Vi que o pai do Manoel de Barros se chamava João. Comprometi aos passarinhos a comunhão de natureza nele. Filho de João de Barros. À primeira vista João-de-barro me pareceu tão João-sem-graça no meio do colorido do pantanal. Depois descobri os jovens artesãos da Casa do Massa Barro, na mesma Corumbá do Manoel, e entendi que João-de-barro era até muito importante: era passarinho construtor e atuava também como metáfora nas horas vagas, ser voante dentro e fora da cabeça das pessoas. Depois veio mais. Ainda no pantanal, aprendi que João-de-barro só anda em par. Eu metido a ornitólogo: mas, Seu Nezinho, agora mesmo eu vi só um! E ele: eu também, mas é que no olho da gente ainda não cabe tudo de uma vez. Foi o mesmo que pousar o par daquele um naquela hora. Dali em diante, toda vez que visse um, consideraria dois, se visse três, quatro, se cinco, seis... Aprendi a contar somando o que eu vejo ao que não vejo e logo me tornei inviável pra ornitologia. Manoel disse que poeta é sujeito inviável, aí pronto. Fotografei a fala de Seu Nezinho como presente pra memória e fui aumentar meu olho.

Manoel também coleciona presente. Li que um dia ganhou de presente o rio. Rio é bonito porque já nasce se escorrendo, igualzinho a palavra infância, que quando é Manoel quem escreve tem o cheiro da minha...

Poesia é quem me faz sim. E se hoje eu falo baixo, é pra não espantar os passarinhos que o Manoel e o Pantanal me colocaram em redor... não perdôo nenhum dos dois por isso.

1 de janeiro de 2009

Anúncio

.

--------------------------------------------------------
ACEITA-SE ANO NOVO
como presente de aniversário...


...ou um mistério em bom estado
...ou um desparafusador de idéia fixa
...ou uma sensação pronta para morar
...ou um catavento 2.3 4x4 abas
...ou uma lua 5 estrelas
...ou uma rima tesãozinha BBG turb. 1.8 alt. bronz. que atenda nua
...ou uma lembrança embalada para o presente
-------------------------------------------------------

.

29 de dezembro de 2008

se bem, que minha mão é asa também

.

na verdade,
nunca consegui escrever sobre passarinho,
nem sobre nada que voa alto

o jeito foi aprender a escrever sob eles

e no tempo em que fiquei
no telhado da minha casa
nunca vi um passarinho
voar negando as asas

esse mesmo passarinho
que hoje eu vi batendo asa
tenho fé seja poeta
sem telhado em sua casa

.

16 de novembro de 2008

Diário de bordo

. Primeiro Dia

Tive a oportunidade de ser mágico!
Mas aí transformei condão em cordel
Pra pendurar estrela em

. Segundo Dia

Hoje, nem sei quanto de Céu me cabe nos olhos.
Também não sei quanto paisagem me cabe nos pulmões.

. Terceiro Dia

Minha construção, eu fiz só com rupturas,
uma sobre as outras.

. Quarto Dia

Nem toda ruína é coisa ruim
Por mais que eu ande, que eu viva, que eu veja,
O chão é quem deixa pegadas em mim.

. Quinto Dia

Faço da memória a morada mais rica
Mas ela só guarda o que foi presente
Crescido na lente do que significa.

. Sexto Dia

-Ah! O jeito como você escreve é muito bonito!
-A forma como eu apago é ainda mais ...e só eu vejo...

. Sétimo Dia

De todos os mestres com quem dividi a vida,
Um deles tinha mestrado.

. Oitavo Dia

Na maré baixa, os olhos presenteiam os lábios com gotas de mar. O sal se faz doce.

. Nono Dia

Da próxima vez que me retribuírem com palmas,
Jogo fora o “p” e vou tentar buscar resto da palavra.
Às vezes, quando a gente tira uma letra, acaba ficando maior.

. Tresdontontem

Seu sonho também acorda vermelho nesses lugares onde os galos divulgam amanhecer?

. Anteontem

Esse verso é filho do pouco que sei
Do muito que errei e do que ainda não vi

(Eram quatro... esqueci...)

. Ontem

Biologia ou poesia, do que gosto mais?
- Pra mim tanto faz, desde que nuas
Lembrando o arrepio na pele macia
Da noite em que um dia fez-se juntas as duas

. Hoje

Mas é que Antônio, só rimava com patrimônio, neurônio...
...essas coisas que gente sabida conversa.

16 de outubro de 2008

quando o brilho do olho acende o brilho do resto

.


poema que é poema
ninguem lê até o final
verdade é, que
ainda no primeiro verso,
ou já o poema é outro
ou já quem lê é outro


porque meus olhos
ainda vão mudar o mundo
nem que seja só o meu

.

4 de outubro de 2008

revolto

menino viu
coqueiro inclinado para o mar
como ele também era
pensou que por isso
fosse um bom chão de jangada
e porta vela
e o menino e o coqueiro se jogaram
um por cima do outro
os dois por cima do mar
mas o mar se sacudia
jogava os dois de volta pra cima da terra

o menino chamou de revolto o mar
o mar respondeu que revolto era o menino
com seu destino
que se fosse do mar seria marujo
mas como era do ar seria araújo

e alguém acaba de nascer pro que é

o coqueiro até que sabia
mas não perderia esse banho
o coqueiro era mais inclinado a banho
que a existencialismo

13 de agosto de 2008

verso feito passarinho

teimaram que não existe
colibri policromo
o tal passarinho que trocou as penas
por versos e hoje voa
soprado pela saudade
disseram que isso é coisa que eu invento
ainda não entendo essa lógica
penso que se eu não inventasse, aí sim não existiria

ainda quero ver
quem se proponha ser mais real que um verso

um dia embolei um verso criativo,
criativo tanto que ele mesmo era poeta
assim que feito me disse:

- hoje a gente troca, Tonho
eu exercito o silêncio
no seu lugar...
e tú vem pra cá, Tonho.
Tonho!
Hoje é tú que vai voar!