1 de julho de 2007

João Hornero de Barros

Da família trabalhadora, tinha lenheiro, pedreiro, barranqueiro, corredor, andarilho, acrobata, e mais um monte de joão, herdou a arte de fazer fornos.
Não era rico, mas se adaptou à vida difícil desse tempo pela qualidade do trabalho. Usava só o barro. Até a água em que o molhava tinha de ser de boa qualidade. Não usava qualquer tipo de cera ou resina - "Sem cera, a idade aumenta", sempre dizia (ou pelo menos pensava).

Pé no chão, do tipo planejador metódico, aplicava um controle de qualidade preciso na fabricação dos fornos. Já o fazia apoiado na madeira, não ter perigo de cair. Expunha ao vento, não podia desmanchar. Depois o sol: se rachou, voltava pr'água. O último teste era o tempo e nesse, forno nenhum falhava. Gravidade, vento, sol e tempo... Pra forno que aguenta, nem chuva nem fogo é perigo.

Não sabia ensinar, não achava necessário. Para ele, fazer forno se aprendia do mesmo jeito que as árvores aprendem a dar frutos. Teve alguém que aprendeu assim. Sim, apesar de discreto, tal qual o barro, nada aventureiro ou galanteador, ele tinha alguém. Fazer forno passou a ser simples assim, uma canção em dueto.
Um dia, assentando barro tossiu... com a mão na boca percebeu que beijou o barro pela primeira vez. Também não tinha reparado as roupas ruivas de barro, as mãos duras quase sem dedos, abraçando o forno e esticando os braços pro lado pareciam asas em movimento... Sentiu vontade de viajar,criar asas, voar, conhecer outros Barros. Quem sabe visitar o irmão Grisalho, o primo Arredio...
Tinha certeza de que voltaria. Deixou pra ela um bilhete explicando em poesia...
Fazer um ninho só com barro
molhado em água pura
casulo de uma vida nova
me tornar também escultura
Engendrar é exercitar sinceridade
E sem cera, a idade aumeta
mais em vida que em anos
mais em força que em peso
e aguenta...
que de um mergulho ao lugar da verdade
quem sabe de lá eu traga
Um Ouro-Preto Paraty Olinda
João H. de Barros
...o bilhete, deixado sobre o último forno, não fez lágrima quando encontrado. Assim que lido, caiu... outro algúem criou asas, também voou atrás do quero-quero que queria...
Sim! Eles continuam trabalhando. Ainda hoje pela manhã vi os dois cantando e construindo mais um forno.
Ouvi dizer que em setembro vêm mais 3 ou 4 joãozinhos, novinhos em folha, quentinhos, saídos do forno, do ninho, da casa, casulo, do barro, sei lá...




João(El Hornero)-de-Barro Furnarius rufus FAMILIA FURNARIIDAE

5 comentários:

Tamara disse...

Acabei de ler teu recado, mas tenho que sair correndo. Ainda não li sua postagem, depois leio e respondo com mais calma...

Beijo Colibri!

p.s: Esse cantinho tá bonito de dar gosto!

Julia Jensen disse...

Puxa!
Difícil comentar!
Muito bom o texto! Cada palavra carrega quase tantos sentidos, que se pode ler em um texto, dois, três...

Hum... to aqui pensando nessa poesia...
por isso que poesias são bonitas. É como se a mensagem estivesse disfarçada... é um jeito de dizer e não dizer...
De mostrar escondendo...
Quem quiser que veja, com os olhos treinados, o que, na verdade, não está ali!

Quero pensar no que vc escreveu, será que eu posso, assim, como a gente fazia no colégio, estrofe por estrofe?

Quem faz o ninho, é também escultura? Quer ser também escultura... Tem ele esse direito?
De moldar e ao moldar ser moldado. Ser mudado... e se mudar.
De forno, de ninho, de barro.

"Engendrar é exercitar sinceridade"

!!
E na sinceridade, engendramos. (?) O que será que a sinceridade tem que nos faz crescer assim? Crescer
na construção de nós mesmos...
Ao sermos sinceros, somos nós mesmos, e não mais algo que fingimos. Deixamos de lado uma certa sombra que colocamos a nossa frente, para nos tapar da visibilidade.
Só que, tudo o que se constroi sem base de sustento, cai. Como já sabia o João de Barro.

Experiência. Vivência. Aumentam a idade, em vida e não em anos. Que legal!
Feliz mesmo seria ser beeem velho em vida. Não em anos. Ser beeem vivo velho, mesmo em anos...

E que essa vida não diminua com a idade, pra que se possa ainda fazer muitos mergulhos pra verdade. Que essa vontade, não seja mais caracteristica de ser jovem. Que isso mude daqui pra frente, para que o mundo possa ser sempre jovem, sempre verdade.

Antonio Araújo Jr. disse...

Análise linda, Julia!

Me provou que estar em diferença de potencial além de dar choque, arrepio e tremilique, pode ser muito gratificante!

me provou também que tem visão de raio x, não adianta me esconder atrás da cortina ou me fantasiar de hidrante que você acha né? Os pés ficam pra fora... sinceridade deixou de ser escolha.

mas isso é história pra outro dia... um beijo!

Natiela disse...

UUUUUmmmmm Maaaaaaaaxxxxiiiimmooo!!!!!!!

É isso que o seu blog é!!!!!

Parabéns, Toninho!!!!!

Antonio Araújo Jr. disse...

Que bacana que vc curtiu Natiela!
Fico felizão, valeu mesmo!