11 de agosto de 2007

Nem tudo é preto e branco

Procurei debaixo de todos os papéis um calendário. O problema é que não era qualquer calendário que me serviria, eu precisava de um que tivesse vivido mais de um ano, que tivesse presenciado o ano passado inteiro, mais precisamente uma sexta-feira de começo de agosto... Eu tinha certeza de que era hoje, mas precisava de um calendário... Lá estava. O papel surrado em preto e branco cheio de quadradinho numerado deu um sorriso de canto, uma piscada, uma balançada de cabeça, e com uma certa compaixão me confirmou: Exatamente hoje, 11 de agosto, fazia um ano.

Devem ter marcado missa... devem ter feito missa todo mês, rezado todo dia. E eu nunca tive coragem de falar direito com a família, não cheguei a perguntar sequer o número da sepultura. Só fui na missa de sete dias... É isso! A missa de um ano deve ser na mesma igreja, o padre conhecia ele, era lá que ele tocava. Sábado só tem missa às 17, então, não tem erro, só poderia ser essa. O dia certo, a igreja certa, o horário certo. E eu já estava atrasado...

No caminho, fui pensando em tudo que tinha pra dizer à mãe dele... "Eu entendo uma parte da sua dor, a Senhora perdeu um filho, nós perdemos um grande e insubstituível amigo" ... e o quanto eu perdi por deixar de aprender, por não conviver o suficiente e como foi difícil rir das piadas, o que eu achava que era risada minha era, na verdade, a risada dele junto a minha...

Cheguei já no fim... todo mundo saindo. No meio da igreja só sobrou um círculo de pessoas em volta de alguém, numa tentativa em vão de consolo. Na mosca: o dia certo, o lugar e o horário certos, sem precisar de um telefonema p'ra confirmar. Fiquei sabendo que, mesmo um ano depois, ela ainda não tinha achado conforto... não podia ouvir o nome do Ricardo que caia no choro de novo. Entrei na fila... Olhei em volta, não conhecia a maioria das pessoas, deve ter vindo só a família, não tem como avisar todos os amigos... Chegou minha vez...

A senhora, de repente, me pareceu mais idosa, bastante idosa, não poderia ser a mãe dele. Eu tinha me enganado: o dia certo, a igreja e o horário certos, mas a senhora errada...

Ela me olhou com um olhar de quem tinha perdido absolutamente tudo... A mulher não era a mesma, mas a dor parecia igual... Numa resposta involuntária chorei também, abracei da mesma forma e disse as mesmas coisas que tinha preparado. O dia certo, a igreja e o horário certos, a fila e a senhora erradas, a dor não necessariamente errada , e o comentário, totalmente incoerente... Não sabia por quem ela estava chorando, se era homem ou mulher, nem se contava piada!


Numa pausa entre soluços, com um sorriso que tinha regado com lágrimas, numa ternura que lembrou minha avó, soltou um "Muito obrigada, meu filho, não imaginaria que o Antenor tinha um amigo assim, tão jovem, que o conhecia tão bem..."

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