27 de setembro de 2007

A primeira vez que morto fez festa

Eram três forrozeiros paraibanos, conhecidos como o Trio Risonho, porque nunca fizeram nada além de tocar e sorrir.

As músicas não tinham letra, era só a zuada do zabumba, do ganzá e da sanfona e as gargalhadas. E se alguém falasse "canta alguma coisa aí p'ra nós", eles diriam "nós num temo nada p'ra dizer", e voltariam a gritar e remexer, sacudindo as barrigas. E eita remelexo da gota! Quem olhava pr'aquilo não conseguia parar de rir e dançar em volta dos três malucos.

Eles iam de vila em vila fazendo São João. Ficavam no mercado e logo o mercado inteiro dançava... Todos vinham, as lojas fechavam e os fregueses esqueciam a razão pela qual tinham vindo. Todo mundo caia em festa. Era realmente muito lindo e se tornava contagioso, nas quermesses dançava filha de coronel com ladrão de bode e até os bispos começavam a dar balançadinhas com o pé, na pancada do zabumba.

Trio Risonho percorreu todo o Nordeste.
De um festejo para o outro, de uma cidade para a outra, simplesmente levando xote e sorriso.

Então, no municipio de Maraial , um deles morreu. A comunidade que se acercava p'ra dançar comentou: “Agora vai ter problema. Agora vamos ver se eles vão continuar a rir. O cabra morreu; eles devem chorar”. Mas quando foram ver, encontraram os dois dançando, rindo e comemorando sem nenhuma afetação. As pessoas da cidade disseram: "Isso já é demais. Isso não se faz. Quando um homem está morto, rir e dançar é sacrilégio, judiação...".

Os dois forrozeiros responderam: "Vocês não sabem o que aconteceu! Todos nós três estivemos sempre nos perguntando: 'Morrer primeiro, a quem será que se destina?'. Este homem venceu; Só nos resta ter a coragem de nos despedir. A vida inteira vivemos junto com ele. Como podemos lhe dar o último adeus de outra maneira? Temos que rir, temos que nos divertir, temos que celebrar. Esta é a única despedida para um homem que esteve rindo a vida inteira. E se não dermos gargalhadas, ele rirá de nós e pensará: ‘Ihhh Seus bestas! Então vocês caíram de novo na armadilha dessa tristeza miserávi?’ nós não achamos que ele esteja morto". Embora ninguém pudesse duvidar que o sanfoneiro foi por demais feliz, as pessoas não entenderam, e desta vez não puderam participar do riso.

O corpo estava prestes a ser levado para a capelinha e os dois amigos disseram:
“Não! Nosso amigo disse para não velarem o corpo. Mandou jogar a sanfona dele na fogueira da quermesse e enterrar o corpo bem raso debaixo de um pau d'arco. Temos que seguir suas instruções"

E então, de repente, se deu o grande acontecimento. Ao queimarem a sanfona, aquele velho barrigudo fez seu último truque. Ele tinha escondido rojões de São João dentro do fole e, de repente, uma baita queima de fogos! Ninguém ali conteve o riso. Os dois forrozeiros puxaram o arrasta-pé e nesse dia nenhum sertanejo sentiu culpa por sorrir.

3 comentários:

Anônimo disse...

Vim aqui.
E ainda estou aqui.
Abraço dos mais fortes.

Anônimo disse...

Sim, sou eu.

Talita del Collado disse...

Que bela história!
Ela aconteceu de verdade?
Espero que sim...