5 de fevereiro de 2008

Conto do Ipê-branco

Ipê-Branco
é rascunho nuvem,
a Terra mostrando para o Céu
que também sabe fazer.
Todo fim de seca,
na última tentativa
...ele me chove.


Acredita-se que tenha sido o espírito de libertinagem inerente aos amantes o que tirou a lua e o sol da banda de baixo do horizonte de antes e deu início à brincadeira sem fim que hoje vê quem olha para cima. E os que olham para cima não demoram a compreender a doce engrenagem do pega-pega: - A lua nasce plena quando assiste o pôr-do-sol, então passa a atrasar pouco menos de uma hora a cada dia, disfarçando um sorriso de canto na medida em que deixa o perseguidor se aproximar. O sorriso vai minguando até que se torna impossível discriminar a lua no clarão do encontro. Dorme às escuras a lua nova, acorda atrasada. Abre um bocejo cada vez maior. Despreocupada, não se importa que o sol tenha passado à sua frente. Seu atraso diário inocente permite que esteja no horizonte oposto, na hora exata, com o sorriso exposto, para assistir o vigésimo oitavo pôr-do-sol, ao mesmo tempo primeiro arrebol de uma nova ciranda.

Certo é que as coisas mudaram com a chegada dos visitantes. O clima que pintou entre os amantes permitiu que o Céu aproveitasse a luz para escolher as cores com que pintaria o clima. O Céu escolheu o azul para se pintar, talvez numa tentativa de também azulejar os que olham para cima. Pintou o dia de amarelo, que é como a luz do sol sendo a luz da gente e como a luz da gente sendo a cor do dia. Mudou também sua forma de contar história. O velho conto do caçador que, por vingança da Terra, era assassinado pelo escorpião, contada pela simples disposição das estrelas, ficou restrita às noites sem lua. Ao raiar dos dias, o Céu experimentava um novo jeito de contar, organizou manchas brancas de tamanho variável e forma inacabada, que em nu vem e com as quais poderia contar qualquer história aos que olham para cima com a possibilidade sobrenatural de contar uma história diferente a cada um, com diferentes personagens, até mesmo quando dois de nós olhassem para a mesma nuvem ao mesmo tempo. A nuvem faz história e faz chover o que, para muitos, se trata exatamente da mesma coisa.

O colorido do clima, que apareceu primeiro em cima, se refletiu embaixo. A Terra também escolheu suas cores e assim surgiam os pássaros, as flores e os trovadores. A Terra passou a ser ávida de chuva e de história, mas por essas bandas do Cerrado por alguns meses contados não há nuvem. Alguns dizem que a seca é a forma de o céu mostrar sua importância e a nossa dependência, outros dizem que a ausência existe para que não nos percamos no mundo do imaginário e não nos esqueçamos de quem somos ou de quem queremos ser, colocando a imaginação a serviço de nossos próprios propósitos. Com ou sem explicação, a seca existe. E a Terra aproveita que está em evidência para reafirmar todo seu colorido, nessa época faz florescer os ipês, uma cor de cada vez, o amarelo entre o rosa e o roxo como o sol entre seu nascer e arrebol.

Mas a seca castiga a vontade de fazer chover. O sentimento de impotência com o qual a Terra assiste a seca não rima com sua criatividade e, ciente de sua fertilidade, a Terra peita a empreitada de também fazer chover. Rascunha um pé de ipê com cara de nuvem e o eleva ao mais alto que consegue, afina o tronco, torna-o leve e por demais florido. O ipê-branco, o último dos ipês a florir, tinha a forma exata de uma nuvem, o que por si não era suficiente para fazer chover, faltava-lhe a capacidade de contar histórias. A Terra achou por bem convocar um torneio entre os melhores pássaros trovadores para que o melhor contasse histórias dos galhos dos ipês dando crédito à idéia de que era só o que lhe faltava para fazer chover, prometeu-lhes a chuva como prêmio.
No primeiro dia, saiu-se melhor o pássaro-poeta João-de-Barros com seus perfeitos versos organizados em trova, a cada verso uma rima nova, estruturados com lucidez de construtor:

Cana caiana
Tijolo de oito quinas
Tu p’ra falar imaginas
Te calo sem imaginar


Deu um nó na língua do Papagaio-verdadeiro...

Casa caiada
Tijolo de quatro bandas
Tu aqui não cantas
Tuas canções desajeitadas


Mandou embora o Sabiazinho-do-Campo...

João-de-Barros já se via campeão quando chegou o beija-flor. O lendário Beija-flor-do-canto já tivera visto uma árvore vestida de noiva em suas memórias de vagatempo, mas quando viu as flores do Ipê-branco, mais enfeitadas que na lembrança, teve certeza de que era o alvo de seus versos. A trova pesada do João-de-Barros interrompeu-lhe o pensamento...

Passarinho de asa em carvão
Tijolo em parede aparente
É covarde o ser vivente
Que vive sem tocar o chão


O Beija-flor que, por sua capacidade de pousar no tempo, já conhecia a trova de João Hornero de Barros e seu gosto por poesia quadrada, ainda encantado com a formosura do ipê respondeu de antemão à palavra “chão”:

admiro sua paixão por tijolos, João.
mas a beleza dessa sinhá é de rio
e minha poesia é correnteza...


João-de-Barros tinha alma de poeta e sabia que era verdade o que falava. Com sua reverência de costume se retirou à sua casinha de barro instalada numa árvore vizinha, antes, porém, abriu uma brecha em sua poesia afinada para trovar no estilo livre do beija-flor:

Beija-flor,
dê cadência à poesia
que a vida pôs em prosa
faz chover...


Quando o beija-flor voltou os olhos para as flores que ouviriam suas histórias e haveriam de fazer chover na seca do Cerrado, encontrou todas atapetando o chão de grama seco. No esforço em compor árvore mais parecida com nuvem, a Terra tinha-a feito efêmera. Como tudo que é efêmero, ipê-branco se desfez. Beija-flor só teve tempo de dizer ao vento:

se sou quem lacrimejo
em seu azul,
céu de azulejo,
como posso eu trovar
como posso trazer chuva...


Teve de imediato a resposta óbvia. O objetivo de fazer chover é cumprido quando a lágrima dos olhos sensíveis ganha o chão frente à poesia das coisas, que coincide exato com o instante em que a alma dos que olham para cima ganha contornos de azulejo e é esta a explicação da íntima relação entre fazer chover e fazer história, entre trovar e trovejar.

O cancioneiro viajante que ouviu este conto, com a sabedoria de quem foi e já voltou, pede a quem torne a contá-lo que mencione em seus versos a certeza de que só quem passa é o tempo, o que a gente faz é mudar de ciranda sem deixar que se envelheça a alma.

Um comentário:

Nana disse...

Sem palavras ... porém mais um sorriso.