12 de dezembro de 2007

Conto do Vagalume

quem foi o vagalume
que teve primeiro a idéia
de esconder estrela no bolso?

Tava com essa pergunta no juízo há uns dez dias, quando as florzinhas da trombeteira me tiraram a dúvida. Se juntaram me olhando lá de cima e contaram essa história. Quem primeiro contou foi o beija-flor. Na verdade quem conta tudo é o beija-flor do canto e do conto. Tem a capacidade de pousar no tempo e parar no ar e assim ele pode voltar, voar p'ra trás, revirar tudo. Reviveu muita história antiga. E, pelo que fiquei sabendo, existiu mesmo um primeiro vagalume mas ele não escondeu nada no bolso e muito menos foi ele quem teve a idéia...

Então... Vê só que coisa... Em todo lugar tem rebelde. A gente sempre quer estar do jeito que não está. Se está sozinho, quer estar com alguém, se está com alguém, quer estar sozinho. E até com as estrelas não foi diferente.

Por muito tempo, no céu só tinha estrela. A lua e o sol ainda não tinham inventado de brincar de correr um atrás do outro... pelo menos não o faziam na banda de cima do horizonte. Era sempre noite. E as estrelinhas lá, penduradas. Elas ficavam o tempo todo olhando as coisas acontecerem aqui embaixo: viam as formiguinhas fazendo fila e se cumprimentando; os grilos viverem de silêncio e barulho, silêncio e barulho... mas só olhar é coisa muito chata, ficavam com vontade de viver tudo isso.

Uma vez, uma não aguentou e se jogou lá de cima! Se despendurou, mas a queda é tão alta e o vento tão forte, que ela se apagou. Foi a primeira estrela cadente. Até hoje quando uma não aguenta, se joga. Mas ela não deixa de existir porque sempre tem alguém que vê ela se apagando. Se alguem vê, vira lembrança. Passa a morar dentro da gente e é dentro da gente que ajuda a realizar o pedido que fazemos. Só ajuda. Apagada ela não tem o encanto de antes, e nos sobra a tarefa de fazê-la brilhar. Mas nem todas se jogam... uma, de tanto olhar as coisas cá embaixo, desejando despendurar, conseguiu perceber o insetinho pequenininho que vagava de alma apagada lá embaixo! Esta foi a sortuda, chamou o apagado bem pertinho e o convidou a dançar. "Dançar com estrela? Eu?". E a estrela se despendurou no abraço de seis braços do agora vagalume. Até hoje dançam abraçados vagalume e estrela. O vagalume não voa mais de alma apagada e a estrelinha conseguiu despendurar do céu em segurança.

E o danado do beija-flor foi lá, voltou p'ra ver tudo isso e hoje fica contando essa história e outras muitas histórias p'ras flores que encontra no caminho. Mas ele conta em forma de segredo. As flores não têm essas frescuras. Quem quiser saber pode perguntar que elas repetem tudo, mas tem que saber ouvir.

-e qual música toca enquanto eles dançam?
-ué! ficou surdo agora?...
-não... acho que ainda não... ainda bem

Um comentário:

Dinha disse...

Rapaz, qt mais eu leio mais dá vontade de ler... vou até imprimir este, amei!!