25 de janeiro de 2009

soprador de ar nas ventas

Me perguntaram se eu fazia poesia.
Deu vontade de eu dizer que poesia é quem me faz...
Isso me pareceu Manoel de Barros, talvez inté fosse. Ele também daria primazia à poesia. Muito mais. Como quando deu primazia à rã, dizendo que era o rio quem morava em suas margens.

Vi que o pai do Manoel de Barros se chamava João. Comprometi aos passarinhos a comunhão de natureza nele. Filho de João de Barros. À primeira vista João-de-barro me pareceu tão João-sem-graça no meio do colorido do pantanal. Depois descobri os jovens artesãos da Casa do Massa Barro, na mesma Corumbá do Manoel, e entendi que João-de-barro era até muito importante: era passarinho construtor e atuava também como metáfora nas horas vagas, ser voante dentro e fora da cabeça das pessoas. Depois veio mais. Ainda no pantanal, aprendi que João-de-barro só anda em par. Eu metido a ornitólogo: mas, Seu Nezinho, agora mesmo eu vi só um! E ele: eu também, mas é que no olho da gente ainda não cabe tudo de uma vez. Foi o mesmo que pousar o par daquele um naquela hora. Dali em diante, toda vez que visse um, consideraria dois, se visse três, quatro, se cinco, seis... Aprendi a contar somando o que eu vejo ao que não vejo e logo me tornei inviável pra ornitologia. Manoel disse que poeta é sujeito inviável, aí pronto. Fotografei a fala de Seu Nezinho como presente pra memória e fui aumentar meu olho.

Manoel também coleciona presente. Li que um dia ganhou de presente o rio. Rio é bonito porque já nasce se escorrendo, igualzinho a palavra infância, que quando é Manoel quem escreve tem o cheiro da minha...

Poesia é quem me faz sim. E se hoje eu falo baixo, é pra não espantar os passarinhos que o Manoel e o Pantanal me colocaram em redor... não perdôo nenhum dos dois por isso.

4 comentários:

Priscila Milanez disse...

Lindo texto! De uma sensibilidade extrema e suave, que toca...

Priscila Milanez disse...

Ah, fico feliz que tenha ganhado um "leitor assíduo e encantado". Sinta-se bem vindo aquele cantinho sempre que quiser. Terás minhas visitas aqui tb. Preciso me abastecer de poesia e sensibilidade sempre. São como doses homeopáticas de vida.

Orieta Valentim disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Orieta Valentim disse...

Nossa, é encantador demais! Encantador do tipo que hipnotiza, não "encantador" de tia dizendo do sobrinho bochechudo (ou boxexudo, hihihi). Tô aqui agora presa, não quero sair, quero mais um tantim desse,
embrulhado,
pra viagem,

tem?